O designer Eduardo Talley experimentou um trabalho por dia no projeto One Day Hand

O designer Eduardo Talley dedicou o mês de maio a experimentar um trabalho por dia em 31 lugares diferentes no projeto criado por ele e batizado de OneDayHand

Por Anna Carolina Rodrigues 09/09/2016 - 08:00

O designer Eduardo Talley, 31 anos, experimentou um trabalho por dia em 31 lugares.

Uma boa história para contar. Era disso que o designer brasiliense Eduardo Talley, de 31 anos, sentia falta. Depois de 10 anos trabalhando em agência de publicidade como diretor de arte, ele simplesmente pediu demissão. Na época, ganhava bem, mas, certo dia, não viu mais sentido no que fazia, juntou um dinheiro e saiu para dar uma volta ao mundo. “Eu sempre tive um perfil de dedicação, nunca fui o cara mais criativo do mundo, mas sempre trabalhei muito bem. Acho que isso foi importante porque eu aquele que apagava incêndio. Só que o fato de ser conhecido por esse perfil, me prejudicou muito em termos de rotina de trabalho, de não ter final de semana, nem férias”. Com o salário que tinha guardado, viajou durante um ano por vários países do mundo, sem trabalhar. “Foi definitivamente a melhor coisa que fiz na vida e recomendo pra todo mundo”. 

O plano era viajar, fazer uma pesquisa de mercado e tendência, voltar e abrir um negócio. Ele comprou uma daquelas passagens de volta ao mundo, que ao contrário do que muitos pensam, não é tão cara assim, dependendo do número de trechos comprados, é possível encontrar essas passagens com preços a partir de 1 500 dólares. Esse plano mudou quando ele percebeu a maneira como pessoas de outros países se relacionam com o trabalho e carreira em outros países. Surgiu a vontade de pensar mais sobre novos modelos de trabalhar. “Lá fora, as pessoas terminam a escola e não vão direto pra faculdade, não definem de cara o que vão fazer da vida delas com 18 anos. Elas viajam, trabalham algum tempo em alguns lugares. Conheci gente de 19 anos com pouca grana que estão viajando pelo mundo por três anos.” Hoje em dia, há várias maneiras de viabilizar isso, mas é claro que dá certo medo. Existem diversos sites lá fora em que é possível receber coisas em troca de trabalho. “Quando eu viajei não tinha nenhuma dessas ferramentas. Acho que se eu viajasse hoje em dia com o mesmo valor de quando eu viajei, eu teria conseguido ficar três anos fora.”

Quando retornou ao país, cerca de dois anos atrás, criou o projeto “Out to Lunch”, para realizar tarefas “no horário do almoço”. A ideia era sair da frente do computador e produzir trabalhos e projetos diferentes do que fazia dentro da agência. Mas, desde então, decidiu que não teria mais um emprego fixo e que iria experimentar coisas diferentes. “Reduzi meu custo de vida, aprendi e trabalhei em construção, produção, alimentação, expedição ou qualquer coisa que me proporcionasse o mínimo de experiência e dinheiro para pagar as poucas contas que tenho hoje”, diz Eduardo. 

Um dos problemas que enfrentou foi justamente a reação das outras pessoas. “A cultura brasileira é muito diferente para entender essa proposta, ainda vivemos e temos uma herança muito forte do que é o ‘modelo correto’ de vida. Temos que estudar, decidir com 18 anos o que vamos ser, nos formar, trabalhar, casar, comprar um carro, uma casa, ter filhos, ter uma carreira, nos aposentar e, se tivermos condições financeiras e físicas, aproveitar com conforto o resto de vida”, afirma. Qualquer coisa que fuja dessa receita, é difícil de ser aplicada no Brasil. “Eu falava que queria trabalhar e receber por um dia de trabalho. Mas muitos tiveram dificuldade em entender, não compreendiam qual o propósito disso, ou perguntavam se eu queria emprego. Eu dizia: ‘quero uma experiência, você vai me contratar por um dia e vai me pagar por isso.” Ele recebeu não apenas dinheiro, mas bens e itens de valor pelo trabalho oferecido. Mas, como sentia a resitência de muitos empregadores, resolveu dar outro formato ao projeto. 

Foi aí que consolidou toda a experiência em apenas um mês – em maio desse ano, Eduardo trabalhou em um lugar diferente por dia. Bastou um domingo de março para desenvolver a ideia que batizou de “One Day Hand” e pensar o site (onedayhand.com) em que explica o projeto, divulga suas habilidades e explica quais tipos de trabalho que gostaria de aprender. Ali há, também, uma espécie de diário com as atividades de cada trabalho. A divulgação? Um único post em sua linha do tempo do Facebook falando sobre o projeto e pedindo para amigos compartilharem e indicarem possíveis trabalhos. “Consegui mais propostas e e-mails do que pude responder”. Houve muita procura de empresas novas, startups, projetos e iniciativas. Foi um resultado inesperado, já que não houve divulgação em nenhum blog ou site grande.Houve muitos compartilhamentos e o alcance foi grande para um post pessoal, mas ainda é pequeno para entender como as grandes empresas verão isso. “Não acredito que mude nada para grandes empresas. Ao contrário, acredito que seja uma provocação contra as grandes, do tipo ‘saia do seu trabalho corporativo e experimente fazer algo novo em que você acredite’.” 


Em termos de dinheiro, decidiu tocar o projeto da mesma maneira como tem vivido nos últimos dois anos: com baixo custo e verba suficiente para se manter durante o mês. Ele conta que ainda tem um reconhecimento grande, e que recebe muita procura pra voltar para o mercado.  Os trabalhos como freelancer ajudam a complementar a renda. O fato de ter um apartamento próprio, em Brasília, também deu mais tranquilidade para tocar o projeto, visto que aluguel é um dos custos mais altos atualmente. 

Mas, o que leva uma pessoa a largar um trabalho em que tirava cerca de 15 000 reais por mês para fazer trabalhos que, nesse primeiro mês, renderam “apenas” 1 500 reais? “Há várias pessoas que não veem mais sentido no que fazem e que querem fazer algo diferente, mas não sabem o que”, diz Eduardo. De acordo com ele, o principal objetivo do ODH é provocar algo nas pessoas. “É experimentar algo novo e descobrir aquilo de que você gosta e descobrir que é capaz de fazer um trabalho que nunca pensou que faria antes. Quero provocar as pessoas e fazê-las perceber que não precisam de uma carreira para viver. Que mudanças são possíveis e que é possível fazer algo diferente, nem que seja por um dia”, afirma. 
Muitos convites vieram de outras cidades também e agora Eduardo planeja uma edição no Rio de Janeiro. “Meu objetivo pessoal com esse projeto, além de contar uma história, é experimentar, aprender e acumular o máximo de habilidades possíveis que me proporcionem trabalhar em qualquer lugar do mundo e me manter sempre em movimento”.


Veja algumas das atividades executadas por Eduardo Talley durante seu mês como trabalhador serial 

O trabalho em que o despertador tocou mais cedo 

Empresa: Da horta Cultivo Afetivo

O que fez: Ajudar em uma entrega de suculentas para o dias das mães. Ele teve que levantar às 4h30 da manhã para ir até o CEAGESP. 

O trabalho em que o pagamento foi o melhor  

Empresa: Pistache Ganache

O que fez - Intervenção de marcas urbanas para uma coleção de móveis que tinham sido jogados fora. No final, Eduardo ganhou uma das cadeiras de design. 

O trabalho que demandou o maior esforço físico   

Empresa - Jardim Secreto

O que fez? - Ajudou a construir a parte de teste de uma horta orgânica. 

O trabalho mais gratificante 

Empresa - CADE Vila Mariana

O que fez? -  Plantou árvores em uma área pública perto do Parque do Ibirapuera. 

O trabalho mais divertido 

Empresa - Bloco Tarado ni Você

O que fez? Participou da produção do Bloco de Carnaval durante a Virada Cultural de São Paulo. 


Esta matéria foi publicada originalmente na edição 216 da revista Você S/A e pode conter informações desatualizadas

Você S/A | Edição 216 | Julho de 2016